* Todos os espetáculos do grupo são criados para serem apresentados em teatros convencionais e também em espaços alternativos.
Sinopse
Pedro Malasartes, tradicional personagem da cultura popular, sai pelo mundo em busca de uma solução para a “maldição do machado”, que impede o seu casamento. No caminho, à procura do que comer e beber, soluciona os problemas encontrados nos locais por onde passa, como a casa de uma mãe superprotetora e um circo decadente. Por fim, chega a hora de retornar e enfrentar seu próprio desafio.
Ficha técnica
Elenco: Marco Ponce, Jeferson Redi e Verônica Nóbili
Dramaturgia e direção: Fabiana Alves, Flavio Rodrigues, Marcos Di Ferreira e Marco Ponce
Coreografias e supervisão geral: Verônica Nóbili
Direção de arte: Ricardo Cozta
Músico de palco: Cristiano Gouveia
Letra da música de entrada: Valdeck de Garanhuns
Músicas originais: Cristiano Gouveia, Flávio Rodrigues e Roberto Caetano
Produção: Fabiana Alves
Duração: 50 minutos
Idade recomendada: a partir de 3 anos
“Andarilhos do Circo do Universo
Vivemos cantando versos
Mostrando todos os brilhos
Nosso trem, anda nos trilhos
Do mistério e fantasia
Trazemos a alquimia
Que muda o feio em beleza
Transforma toda a tristeza
Na glória da alegria
Somos malabaristas
Fiel calma vida
Mantemos a alma
Vivendo conquistas
Palhaços artistas
Do circo esplendor...”
Valdeck de Garanhuns para a Cia. Circo de Trapo.
Reflexão, pesquisa e contexto
Um pouco sobre o processo de criação, as opções estéticas e o percurso de O complicado casamento de Malasartes
Numa alusão à tradição cômico-popular, artistas mambembes, que vivem a perambular de uma localidade a outra apresentando seus espetáculos, chegam a uma região muito distante – isto não sem apuros e tropeços pelo caminho. No entanto, esses artistas, andarilhos por natureza, são também conscientes de sua origem. No caso da Cia. Circo de Trapo, a aldeia de onde esta trupe de atores, palhaços, músicos e contadores de histórias emigrou é a Zona Leste de São Paulo. Feitas estas observações, um dos atores desce do palco e segue em disparada a cumprimentar as crianças do público, no que é repreendido por um dos colegas de cena: “quem está aí não vem para cá e quem está aqui não desce aí!”, numa referência palco-platéia. Essa é uma das inúmeras situações que dizem respeito à idéia de espetáculo e ao próprio fazer teatral e que estão presentes em O complicado casamento de Malasartes. Tais inserções aparecem de forma a fragmentar a narrativa e fazem com que este trabalho resvale também, como outros da companhia, em um projeto de educação em termos de formação de público, ao propiciar um debate sobre os elementos cênicos que compõem uma peça de teatro. Outro exemplo está nas trocas de cenário e personagem que são reveladas em cena em momentos denominados pelos atores de “intervalo”. É aí que ocorre uma breve história paralela à narrativa de Malasartes: uma anedota em que o ator que representa o protagonista (Jeferson Redi) trapaceia seus colegas para beber toda a água disponível no camarim. Com isso, é como se os artistas abrissem as portas da coxia ao público por meio de um flerte metalingüístico – uma peça dentro da peça. Curiosamente, os atores apresentam sensações e posturas semelhantes àquelas de suas personagens. “Não foi esse Pedro Malasartes que tomou nossa água no início do espetáculo?” – personagem e ator que se fundem, ambos são espertos e têm sede. Mas também podem ser duplamente bobos, como um dos atores que é sempre ludibriado e que na peça atua na pele de um bebê de 33 anos e do funcionário de circo que é um palhaço nato (personagens de Marco Ponce). Percebe-se, portanto, que existem diferentes camadas de ficção: além das personagens que conhecemos da história de Malasartes, a peça que é apresentada dentro da peça é encenada por atores que também estão revestidos de personagens. Nisso, são ao todo dez papéis interpretados por três artistas.
Depois de bater na porta de uma mãe incrivelmente superprotetora, que cuida de seu filho já adulto como se fosse um bebê, nosso protagonista continua sua peregrinação em busca da solução para a “maldição do machado”, que impede o seu casamento com Lindalva, e vai parar em um circo sem artistas. “O último palhaço fechou um contrato milionário com o Cirque du Soleil”, avisa o funcionário. Em tom de deboche, o grupo faz referência à discrepante realidade dos circos tradicionais decadentes e das companhias conhecidas por suas gigantescas estruturas e pelo alto valor do ingresso cobrado em seus espetáculos. Acontece que Malasartes consegue resolver todos os problemas dos lugares por onde passa e imbuído de sua experiência de andarilho parte para decifrar o próprio enigma. Vitorioso, mostra-nos que muitas vezes no nosso dia-a-dia criamos dificuldades que podem ser solucionadas de maneira simples.
A inspiração para a escolha da figura de Pedro Malasartes surgiu em meio a uma pesquisa acerca dos contos populares em que a presença da personagem é recorrente. Os artistas da companhia, apaixonados pela astúcia com que ele saía de enormes confusões, aprofundaram a investigação, buscando apoio em filmes de Mazzaropi, um dos comediantes mais singulares do nosso cinema. Outra referência foi o livro Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões, de Ricardo Azevedo. Com base nesta pesquisa, as cenas foram levantadas após muito improviso e experimentação. Também como elemento importante do espetáculo, a trilha sonora, executada ao vivo, é composta por canções criadas exclusivamente para a peça e paródias de cantigas como “Pombinha branca” e “Teresinha de Jesus”; além disso, a sonoplastia enriquece o discurso sonoro, acentuando sentimentos e intenções das personagens. Quanto à direção de arte, nota-se influências da linguagem do desenho animado, com uso de muitos adereços e cores, sendo que as personagens se transformam como em um “passe de mágica”.
Desde 2006, O complicado casamento de Malasartes já foi apresentado em diversos espaços e ocasiões: praças e teatros de unidades do SESC, como Vila Mariana, Carmo, Santana, Rio Preto, Araraquara, no Instituto Pombas Urbanas, na Escola Livre de Teatro (ELT) de Santo André, na I Mostra de Teatro de Rua de São Paulo, na Biblioteca Paulo Setúbal e em CEUs (dentro do projeto Recreio nas Férias), entre outros locais. Além disso, o espetáculo, premiado em 2007 com o Programa de Ação Cultural (PAC), atual ProAC, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, percorreu as seguintes cidades: Pirajuí, Agudos, Lençóis Paulista, Monteiro Lobato, Paraibuna e Santa Branca.
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