* Todos os espetáculos do grupo são criados para serem apresentados em teatros convencionais e também em espaços alternativos.
Sinopse
Um palhaço-poeta, Marcolino Antonio, com a ajuda de sua assistente Fabinha e de sua musicista Chicorita, vê se concretizar a tão esperada oportunidade de apresentar o seu espetáculo de poemas, canções e números circenses. Inspirada nas obras Limeriques e A aposta, da escritora Tatiana Belinky, a Cia. Circo de Trapo busca o exercício da tradição oral e se inspira no legado deixado pelos palhaços de circo para prestar homenagem a Picolino, um dos grandes artistas clownescos.
Ficha técnica

Roteiro e elenco: Fabiana Alves e Marco Ponce
Direção: Marco Ponce
Cenário: Cia. Circo de Trapo
Figurinos: F.E. Kokotch
Musicista: Danielle Vasconcelos
Produção geral: Fabiana Alves
Duração: 45 minutos
Idade recomendada: a partir de 3 anos
|
Reflexão, pesquisa e contexto
Um pouco sobre o processo de criação, as opções estéticas e o percurso de Circo Poemas
Já de imediato, a chegada, a preparação custosa dos instrumentos e o início da música executada por Danielle Vasconcellos evocam em nosso imaginário clownesco a cena de Luzes da Ribalta, filme de Charles Chaplin em que ele e seu parceiro, o também brilhante Buster Keaton, apresentam um número musical repleto de palhaçadas. Apesar das trapalhadas, a canção começa enquanto Fabinha (Fabiana Alves) chega à cena estabelecendo seu diálogo com o público – elemento fundamental em um espetáculo que trabalha a linguagem do clown e do teatro popular.
Uma referência presente nas pesquisas da Cia. Circo de Trapo é o teatro épico, evidenciado pelo caráter anti-ilusionista dos espetáculos e que busca uma tomada de posição do público frente à própria obra. Esse traço se mostra presente em Circo Poemas, sobretudo pela postura com a qual os atores se apresentam. Ao entrar em cena, Marcolino Antonio (Marco Ponce) já anuncia: “Nós fomos contratados para apresentar um show de palhaçadas para vocês...”. Além disso, há uma proposital fratura narrativa no espetáculo em que o então palhaço-poeta se torna poeta-palhaço (ou narrador-palhaço) ao declamar poesias da escritora Tatiana Belinky. As canções também exercem esse papel e ainda criam uma experiência de comunhão entre os artistas e o público.
A performance de Marcolino é um capítulo à parte – e um capítulo nada sério. Palhaço porque seu pai era palhaço, da mesma forma que o pai do pai dele e assim por diante, faz-se a referência à tradição dos palhaços de circo, profissão herdada de geração a geração entre as famílias circenses. Tal evocação também ocorre no tipo de atuação, com números e piadas caracterizados pelo blefe, por exemplo, bem ao estilo do palhaço de circo. As “habilidades” demonstradas por Marcolino são risíveis e a maior parte de seus números não funciona, o que repercute em efeito cômico e na percepção sutil da própria essência do clown. Afinal, o palhaço, projeto da imperfeição e do inacabamento a que estamos todos submetidos, tem o seu processo de construção exacerbadamente revelado e requer compreensão do outro, acionando, não a tolerância, mas o afeto e a paciência carinhosa do público. O palhaço Marcolino, antes de executar um de seus números “dificílimos”, avisa, ingênuo e vaidoso: “Olhem só o que eu sei fazer!”. Outro recurso épico se destaca pela homenagem prestada ao grande palhaço Picolino, em que ocorre uma ruptura de continuidade no espetáculo a partir de uma conversa com o público e da apresentação de uma imagem do artista.
Desde 2004, Circo Poemas vem sendo apresentado em diversos locais como unidades do SESC – na capital, no litoral e no interior do Estado de São Paulo (Ipiranga, Vila Mariana, Rio Preto, Bertioga, entre outras) –, CEUs (Rosa da China, Aricanduva, São Mateus), livrarias, além de ter integrado a programação de projetos da Secretaria Municipal de Educação, como o Recreio nas Férias, e sido encenado em outros espaços públicos como a própria rua, o que aconteceu em São Paulo, por ocasião da Virada Cultural de 2005, e em cidades do interior como São Sebastião e Tatuí.
Mas o início do processo se deu em meio à ocupação artística que a Cia. Circo de Trapo desenvolveu na Biblioteca Paulo Setúbal, na Vila Formosa, Zona Leste da capital – primeira fase do “Circo de Trapo na Zona Leste”, projeto ainda em desenvolvimento. No começo da ocupação, cujo primeiro fruto foi justamente Circo Poemas, a companhia se debruçou sobre a literatura infanto-juvenil de autores como José Paulo Paes, Ruth Rocha, Ricardo Azevedo, Eva Furnari, além da própria Tatiana Belinky, e criou o espetáculo a partir do diálogo com os frequentadores da biblioteca em um processo colaborativo do ponto de vista também do público. A idéia inicial era apresentar as obras desses escritores, estimulando a leitura e despertando a curiosidade pelos livros. Por outro lado, a responsabilidade em proporcionar o encontro entre as pessoas e a literatura exige do artista uma atenção redobrada quanto à recepção do seu trabalho, ainda mais quando esse trabalho é dirigido principalmente à criança, que é um público bastante especial. Preocupada em imprimir ao espetáculo características como leveza e diversão, a companhia optou pela linguagem do palhaço e do universo circense e definiu poemas, das obras Limeriques e A aposta, de Tatiana Belinky, para o conteúdo literário. A escolha do clown como porta-voz da palavra poética se justifica também pela empatia que gera em crianças e adultos. Além disso, a homenagem ao Picolino se dá pelo fato de ele ser um poeta e fazer parte de uma geração na qual os palhaços escreviam poesias sobre o seu ofício, numa relação com o palhaço-poeta Marcolino. Quanto à direção de arte, a marca está na simplicidade, evidente nos figurinos da dupla de palhaços e nos objetos de cena, privilegiando o jogo clownesco, o clima de circo, as histórias rimadas e a relação com o público.
|